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domingo, 9 de outubro de 2016

O MÉTODO CRONOS

A falta de informação sobre o livro que está sendo sorteado, 
me leva a tecer os comentários a seguir: 

Normalmente, a ficção científica - excluídas as "space operas" 
(por vezes estas também) - é uma crítica social que se exclui, 
deliberadamente, do aqui e agora para melhor explanar os 
problemas e poder expor uma solução, sem empecilhos. 

É o caso de muitas obras clássicas como '1984', 'A máquina 
do tempo', 'Admirável Mundo Novo', 'A ilha do Dr. Moreuau', 
'Fahrenheit 451' e diversos outras. 

É o caso também de "O método Cronos", de Alves Borges. 
Publicado em 1981, não poderia, nem de longe, fazer uma 
referência crítica ao regime estabelecido, a ditadura militar. 

Então, situar a história em um futuro remoto e em nível 
mundial, eximiia a obra de censura e tornava possível o tema 
mesmo da obra: O patrocínio, pelos governos, da ignorância 
total da população! 

O artifício possibilitou a inserção de trechos como este, logo 
na página 7: 

"É claro que contestar o método Cronos é sinal de ignorância. 
Afinal, é um método através do qual todos são ignorantes e, 
por isso mesmo, felizes. 

Mas, no mundo, basta uma sumidade dizer uma frase, por mais 
genial que seja, que há sempre um imbecil para contradizê-la.
Por isso, à ideia de que a cultura só traz desvantagens e 
prejuízos ao ser humano, antepõem-se os extravagantes e os , 
saudosistas, que ainda acreditam no homem culto. 

Por incrível que pareça, um desses extravagantes sou eu e 
essa é a razão porque escrevi este livro." 

E prossegue exlicando a situação, nas páginas 14 e 15: 

"Se por acaso havia um governo, esse governo não tinha a 
mínima noção do que fosse governar. Cada um sabia o que 
tinha que fazer - o futebolista exercitava-se, os passistas 
dançavam, os juízes julgavam, a polícia política sentava o 
pau,  - mas ninguém tinha ideia por que fazia aquilo. Cada 
um cumpria seu  papel porque já estava programado, 
preestabelecido." 

[...] "Assim funcionava o sistema. Satisfazia o grande público. 
Havia o momento de um time perder, havia o momento de 
ganhar. O que não podia haver era o descontentamento 
popular. Havia emoções a incentivar, mas nunca o desacordo 
nas decisões." 

E o protagonista é um jogador de futebol que é um garoto 
rebelde. Diz seu treinador: 

"O homem inconformdo já não existe mais; foi eliminado pelo 
método. Esse rapaz já esteve por três vezes em centros de 
recuperação e ainda continua protestando, brigando, criando 
caso. É um desajustado social, sem a mínima possibilidade de 
recuperação." 

Em diálogo com uma bibliotecária clandestina, aprende uma 
boa lição. Ele pergunta: 

" - Como uma pessoa expressa, então, seu sentimento em 
voz alta? 

- Primeiro que tudo, você não é obrigado a expressar os seus 
sentimentos em voz alta. Você tem direito a uma vida íntima. 
Os seus pensamentos são seus. Você poderá externá-los ou 
não se quiser ou quando quiser. 

- Não  será hipocrisia esconder os pensamentos? 

- De modo algum. A palavra exige o pensamento burilado, a 
ideia formada. Não será leviandade externar os pensamentos 
sem que selam fruto de um raciocínio?" 

O protagonista - que não tem nome, só número - iniciou sua 
revolta com pichações nos muros dos estádios. Suas frases 
preferidas eram: 

"Onde a forlça vai bem, o ensino vai mal" e "Para dominar 
não é necessário matar, basta acabar com a cultura". 
Bastante coerentes, por sinal. 

Repito aqui, que o livro é publicação de 1981, não pretende 
retratar a sociedade atual, mas as semelhanças ñão são mera 
coincidência: 
Enquanto existirem brasileiros apenas nominais, sem o menor 
apreço a seus compatriotas, a desgraça estará à espera! 

Abraço do tesco. 

Um comentário:

Érika Oliveira disse...

Desgraça à espera mesmo!