Eu já construí uma casa de bonecas.
Lembrei-me disso ao ler uma crônica de Rubem
Alves, “Da alegria sempre uma aprendiz...’.
Alí ele diz: “E bom mesmo não é o serrote, mas a
casinha de boneca que se faz com ele, e que faz os
olhos da menina brilharem. Felicidade são os olhos
da menina...” .
Lembrei porque não utilizei serrote: Era uma caixa
de papelão.
Foi um caso de simplicidade e rapidez. Uma caixa de
aproximadamente 40 x 40cm, na horizontal mesmo –
nada de 1º andar – onde coloquei as divisórias,
também de papelão, claro, disponibilizando sala,
dois quartos, cozinha e banheiro. E sem teto.
Nada de sofisticado, a única ‘riqueza’ eram as portas
nas divisórias, como numa casa comum.
Sem bonecas grandes, apenas “calungas” de cinco
centímetros poderiam ‘habitá-la.
Mesmo assim, foi grande a alegria das pivetes,
antigamente era mais fácil alegrar as crianças.
O brilho nos olhos valeu o esforço.
E eu também dormia tranqüilo, sem me preocupar
que rasgassem a “preciosidade”. Artigo barato
traz essa vantagem.
Claro que nessa época, 20 anos atrás, já existiam
os comerciais de Barbies, Suzys e outras “stars”,
mas era coisa mais fácil de contornar. Acredito que
hoje seja mais difícil, pois o cerco à criança, com
o incentivo desmesurado ao consumo infantil,
intensificou-se.
Mas isso demonstra, mais uma vez, que a felicidade,
mesmo que seja efêmera, não depende de artefatos
rebuscados. Questão de saber e querer cultivar
coisas simples: Pequenos gestos, umas poucas
palavras, umas flores num vaso.
Isso é sabido, cantado e decantado. Porém é
sempre oportuno lembrar. Porque a gente faz da
felicidade as meninas dos olhos, e muitas vezes,
ela está nos olhos das meninas.