Não assisti a nenhum filme da série “Matrix”,
apenas um trecho, não sei de qual deles e,
quando assisti, não sabia que era um “Matrix”.
Não entendi nada, mas não gostei, assim mesmo.
Ao ler o livro objeto do sortesco abaixo, “A pílula
vermelha”, foi que tomei conhecimento do tema,
que me pareceu muito surrealista.
Sei que, a priori, não se deve descartar nenhum
tema na literatura / filmografia, principalmente
quando se trata de ficção científica, mas os
buracos deixados no entendimento / aceitação
do tema desse filme são muitos.
- Ora, tesco, isso é ficção, não cabe nenhum
questionamento.
Cabe sim! Sendo fantasia, pura e simples, como
“A incrível fábrica de chocolate”, ou “O mágico
de Oz”, não precisamos questionar nada. Mas
sendo ‘ficção-científica’, precisa manter um
mínimo de coerência com os conhecimentos
atuais.
Primeiramente a situação inicial:
O remanescente da humanidade, à exceção de
alguns indivíduos, encontra-se atrelada, sem ter
conhecimento disto, a um sistema de manutenção
de vida similar à das culturas hidropônicas, isto é,
recebendo nutrientes mergulhada em um caldo
nutritivo.
Já aí levantam-se muitas questões.
A quanto monta essa população ‘remanescente’?
Partindo-se de uma extinção em massa,
‘deletando-se’ 99% da população atual, ainda
teríamos mais de 60 milhões de pessoas.
Imagine agora colocar todo esse pessoal em
cubas nutritivas. Se aplicar uma vacina numa
quantidade dessas já é problemático, como
seria fazê-las conformar-se pacíficamente a
uma reclusão desse tipo?
- Consequentemente a uma situação caótica
todos vão procurar alimento e submeter-se às
exigências de quem lhe dê comida.
Não é tão simples. Nunca houve unanimidade
em nada no mundo e, mesmo após explosões
nucleares, continuará havendo dissensões.
Agora aparece um segundo questionamento:
Acredito que, havendo remanescentes de uma
hecatombe universal, eles estarão dispersos por
todo o planeta, das planícies siberianas aos
campos da Patagônia.
Na situação inicial, todos estão juntos ou, pelo
menos, aproximados. Como juntar a população
mundial num só lugar? E que lugar seria esse,
que conta com uma infra-estrutura tão boa, com
energia elétrica, alimento, e mão-de-obra
ordenada?
- Bem, aí... É, é complicado!
Sim, mais complicado do que pensávamos no
começo. Nem eu havia pensado nisso.
Alimento para 60 milhões de pessoas não surge
assim do nada. Normalmente vem da agricultura,
e agricultura está bem longe de ser totalmente
mecanizada.
Mas, tem mais!
A finalidade disso não é uma questão
humanitária. Segundo o que li, é para a
obtenção de energia para uma Inteligência
Artificial maligna.
Ora, um dos ensaios do livro nos diz que a
energia obtida de corpos humanos (e nem é sua
queima, pura e simplesmente, como se faz com
carvão) seria mínima, insuficiente para manter
qualquer sistema cibernético. Mais proveitoso
seria utilizar a energia eólica que, provavelmente,
ainda estaria disponível sem dificuldade.
- Essa I.A. não é tão inteligente, é mais maligna.
Sem dúvida! Mas a minha questão fundamental
é sobre a ilusão imposta a essa “fonte de
energia”. Como o sistema conseguiria sobrepor
uma vida virtual aceitável para esses milhões
de pessoas, com cada um seguindo seu próprio
nariz? Todos teriam suas próprias opiniões e
habilidades, mesmo que virtuais, e não teriam
abdicado disto.
Sabe-se que a principal virtude dos sistemas
computadorizados é a repetição de
comportamento sem evidência de ‘cansaço’.
Não haveria uma ‘padronização’, com vidas
virtuais iguais para pessoas diferentes?
Sei não, mas pra mim a Matrix, vista de um
modo prático, realístico, não funcionaria.
Como metáfora, sim! Acontece atualmente e em
toda a capacidade produtiva. A mídia nos toma
como ‘fontes de energia’ e nos impõe uma vida
virtual, onde somos condicionados por uma
dose maciça de consumismo e, se nos
adaptamos a esse sonho imposto, dificilmente
podemos escapar.
Nossa sorte é que nem todo sonho é previsto
pela “Matrix / Mídia” e, parece paradoxal, com
esses sonhos nos libertamos da ilusão.
Abraço do tesco.